1. Homenagem ao Património Cultural Português
Na sua recente exposição “Moringue Vazio, Não Carrega Só Vento”, presta homenagem a um objeto do património cultural português — já desativado para o seu propósito original, mas profundamente simbólico. Como em muitos dos seus projetos, o ponto de partida é a sua coleção pessoal de cerâmica tradicional portuguesa. Este objeto em particular, outrora essencial na vida rural, está intimamente ligado à cerâmica popular e às práticas de conservação da água.
Pode contar-nos mais sobre este objeto, o seu significado histórico e por que escolheu destacá-lo nesta exposição?
Felipa Almeida: Baseada na pesquisa e no texto escrito pela Maria Manuela Restivo para o livro da exposição, posso dizer que o moringue é um objeto que atravessa séculos de história e práticas quotidianas. Também conhecido como moringa ou moringo – e, consoante a região, como bilha, barril, pipo ou piporro – o termo tem raízes no quimbundo angolano mudingi, que significa bilha de água. A sua forma é singular: uma asa e duas bocas, uma larga para encher e servir, outra estreita para beber. Síntese do cruzamento de várias tradições cerâmicas, difundiu-se no espaço lusófono sobretudo a partir do século XVIII, tornando-se presença indispensável no quotidiano rural. Durante gerações, o moringue refrescou a água e a vida, acompanhando homens e mulheres nos campos, nas cozinhas e nas mesas. Era um objeto funcional, humilde, mas central na economia doméstica. Com a chegada da água canalizada e dos novos materiais, foi progressivamente abandonado. Perdeu a sua utilidade original, mas não a sua força simbólica. Hoje, já não serve para matar a sede, mas para despertar a memória. De utensílio passou a testemunho, de ferramenta prática a peça de coleção, apreciada tanto pela beleza artesanal como pelo eco cultural que transporta.
Foi nesse “vazio” – o do objeto despojado da sua função – que encontrei um campo de possibilidades. A exposição “Moringue vazio não carrega só vento” foi uma homenagem a essa resistência. Mesmo sem carregar água, o moringue continua a carregar gestos, histórias e a memória de quem o moldou. Remete-nos para uma prática comunitária de partilha – dois gargalos que convidam a beber em conjunto – e, nesse gesto, recorda-nos o valor do coletivo. A ideia da exposição nasceu de um convite da galeria Plato, cujo único requisito era trabalhar a cerâmica. Parti, como tantas vezes, da minha coleção pessoal, com o Alentejo no pensamento. Escolhi o moringue por ser um objeto que me acompanha de perto enquanto colecionadora e observadora da cerâmica popular portuguesa. Convidei 27 artistas de diferentes gerações e geografias a criarem o seu próprio moringue. Quis provocar esse encontro entre tradição e contemporaneidade, entre uma forma ancestral e a liberdade expressiva de hoje. Paralelamente à exposição, e em continuidade com projetos anteriores, decidi também alargar essa reflexão à publicação, em colaboração com a Maria Manuela Restivo, de um livro, para o qual visitámos várias coleções privadas e museológicas, reunindo exemplares antigos de moringues de várias regiões de Portugal. A justaposição destes objetos históricos com as peças criadas por artistas contemporâneos permitiu-nos ver, lado a lado, as permanências e as transformações. No fundo, foi uma forma de homenagear e celebrar este objeto.
2. Colaborações com ceramistas contemporâneos
Em vários projetos recentes, convidou ceramistas contemporâneos de diversas áreas para reinterpretar objetos tradicionais. A sua rede de colaboradores parece crescer a cada nova iniciativa.
Como começou esse processo colaborativo e quem foram alguns dos primeiros artistas ou artesãos com quem trabalhou?
Felipa Almeida: Desde o início deste projeto, senti que o meu trabalho deveria estabelecer uma ponte entre a olaria tradicional - muitas vezes enraizada fora de Lisboa e preservada por mestres que guardam séculos de saber -, e os artistas contemporâneos que exploram a cerâmica como linguagem artística. Sempre houve essa vontade de juntar gerações, geografias e olhares distintos, criando um espaço comum onde a tradição é reinventada. Do lado da olaria popular, a figura mais marcante foi — e continua a ser — o mestre Xico Tarefa, do Redondo. A sua presença acompanha-me há anos, desde os tempos em que tinha um ateliê de arquitetura e interiores, até aos dias de hoje, em que assumo a curadoria como prática a solo. Em 2020, no contexto da pandemia, nasceu a minha primeira feira independente, a “Feira Não Cancelada”, no meu atelier. Nessa altura, havia um excesso de peças acumuladas nas olarias, impedidas de chegar aos mercados e circuitos habituais. Quis dar-lhes visibilidade e circulação, e foi nesse gesto que tudo começou. Entre os participantes estavam Xico Tarefa e a artista Henriette Arcelin, que partilhava então o espaço comigo e com quem tenho colaborado em todas as pop-ups até hoje. A esse núcleo inicial juntaram-se outros nomes fundamentais: Júlia Cota, António Ramalho, João Mértola — já desaparecido, mas cuja obra permanece — e tantos outros que, vindos de universos distintos, aceitaram o desafio de repensar a tradição. Foi assim, nesse cruzamento entre excesso e urgência, entre necessidade e desejo, que nasceu a minha rede de colaborações: orgânica e sempre fiel à ideia de que o futuro da cerâmica se escreve tanto na memória como na invenção.
3. A Cerâmica na Cultura Rural Portuguesa
A cerâmica tradicional, ou olaria, continua a ser uma parte essencial da cultura rural portuguesa.
Na sua opinião, o que torna a cerâmica tão central para a identidade cultural portuguesa, especialmente em contextos rurais?
Felipa Almeida: A cerâmica nasce, antes de mais, de uma necessidade: seja guardar água, cozinhar, servir à mesa…É, por isso, inseparável da vida quotidiana, sobretudo em contextos rurais. Mas rapidamente ultrapassou a mera função utilitária. O barro, nas mãos dos oleiros, tornou-se também decorativo, simbólico e até ritual — como se vê no figurado de Estremoz ou de Barcelos, dois dos centros oleiros mais importantes do país.
O que torna a cerâmica tão central para a identidade portuguesa é essa capacidade de manter uma lógica do lugar. A matéria-prima continua a existir em muitas regiões e, com ela, a transmissão de saberes de geração em geração. Em Barcelos, por exemplo, as mesmas figuras são recriadas há décadas, num movimento de repetição e reinvenção que assegura continuidade e pertença. Noutras regiões, a cerâmica mantém o duplo papel: ainda é utilitária, mas também decorativa, afirmando-se como património vivo.
Seja no prato de barro que antes servia apenas para comer, seja no moringue que transportava água, ou na peça que hoje ocupa lugar de destaque numa sala contemporânea, a cerâmica portuguesa nunca deixou de ser procurada, produzida e celebrada. É memória, é permanência e é também transformação, logo é uma arte profundamente enraizada no território.
4. Como descreveria o estado atual da cerâmica em Portugal?
Está a observar alguma mudança ou evolução específica, seja na técnica, no reconhecimento ou no papel da cerâmica na cultura contemporânea?
Felipa Almeida: Parece-me que a cerâmica em Portugal vive um momento de grande vitalidade nas cidades, onde nunca se produziram nem se procuraram tantas experiências em torno do barro como agora. Em Lisboa, por exemplo, proliferam escolas, cursos e ateliês que despertam um entusiasmo coletivo, atraindo curiosos, aprendizes e artistas que encontram na cerâmica um território fértil para experimentar. Contudo, infelizmente não se pode dizer o mesmo dos centros oleiros como o Redondo ou Estremoz onde já houve muito mais atividade.
Penso que o que se observa hoje é um alargamento do campo: ao lado da loiça utilitária e rústica, há uma produção mais polida, pensada para o uso doméstico contemporâneo, e, em paralelo, uma vertente cada vez mais assumidamente escultórica e conceptual. Alguns artistas de arte contemporânea se apropriaram da cerâmica como linguagem, e isso trouxe um novo reconhecimento ao material — deixou de ser visto apenas como “pobre” ou “rústico” e passou a ter lugar nos museus, nas galerias e nos centros de arte.
Essa transversalidade é o que mais me impressiona no panorama atual: a cerâmica portuguesa tanto habita a cozinha como a sala de exposições, tanto se afirma como património vivo de raiz rural como ganha fôlego num contexto institucional e académico.
5. Colaborações artísticas com marcas
Marcas portuguesas como a Bordallo Pinheiro têm um histórico de colaboração com artistas e artesãos para criar peças de edição especial.
Vê este tipo de colaboração entre artistas e marcas com continuidade ou a maioria das empresas passou a trabalhar principalmente com equipas internas?
Felipa Almeida: Confesso que não tenho conhecimento específico para responder a essa pergunta, mas as colaborações entre marcas e artistas são, a meu ver, um território fértil e cheio de futuro. A Bordallo Pinheiro parece-me ter sabido cultivar essa tradição e espero sinceramente que a continue a aprofundar. O mesmo se passa com a Viúva Lamego, que ao longo do tempo tem aberto espaço ao diálogo com diferentes criadores. São exemplos que mostram como esse saber técnico, acumulado ao longo de gerações, pode ser colocado ao serviço de novas linguagens e visões artísticas.
O universo das colaborações está hoje a florescer e acredito que a tendência será cada vez mais no sentido de criar peças únicas, cruzando marcas e artistas, portugueses e estrangeiros. É um encontro muito rico, que não só amplia a relevância do património técnico destas fábricas como permite concretizar ideias e sonhos que, de outra forma, não seriam possíveis. Muitos artistas não teriam meios para realizar determinadas peças sem este apoio especializado, e é justamente na junção entre conhecimento ancestral e imaginação contemporânea que reside a magia destas parcerias.
Para mim, é fundamental que esse legado seja celebrado, homenageado e projetado no futuro. Cada colaboração é também uma forma de evidenciar o talento e a mestria que existem em Portugal — uma herança que não deve ficar apenas no passado, mas que merece continuar a ser reinventada, peça a peça.
6. A sua coleção pessoal
A sua própria coleção de cerâmica de autor desempenha um papel importante nas suas pesquisas e exposições.
Quando começou a colecionar e como consegue essas peças únicas?
Existe algum foco ou tema específico que orienta a sua prática de colecionismo?
A minha coleção nasceu de forma quase orgânica, sem um plano inicial. Quando trabalhava em arquitetura e interiores, passava muito tempo em olarias e feiras, e comecei a trazer peças comigo — primeiro como referência e inspiração, mais tarde como verdadeiro gesto de colecionismo. Foi sobretudo a partir de 2020, quando iniciei este projeto a solo de curadoria, que a coleção ganhou corpo e consciência.
Hoje, já tenho uma espécie de circuito próprio: encontro peças em mercados de rua, feiras, antiquários, leilões online, olarias e galerias. Por vezes são os próprios artistas que me apresentam o seu trabalho, e também já existem pessoas no terreno que, conhecendo bem os meus interesses, me ajudam a encontrar peças singulares. Esse processo de descoberta é sempre diverso, mas também muito intuitivo.
Quanto ao foco, há uma clara inclinação para o figurativo — e dentro dele, para a figura feminina, que me atrai de forma especial. Depois, também por atração ou até por uma certa dose de humor, há temas que se repetem na coleção: as sereias, os mochos e tudo o que remete para o amor. Paralelamente, coleciono pintura, onde sigo uma linha mais definida: apenas artistas mulheres portuguesas.
7. Publicação como Pesquisa
A sua exposição mais recente foi acompanhada por um livro primorosamente produzido, que funciona não só como um catálogo, mas também como uma investigação sobre a presença do objeto em diversas coleções museológicas em Portugal. Publicou também um livro dedicado à sua coleção pessoal.
Vê as publicações tornando-se uma parte cada vez maior da sua prática? Há projetos editoriais em andamento?
Felipa Almeida: As publicações tornaram-se, de certa forma, uma extensão natural do meu trabalho curatorial. Tal como as exposições, os livros permitem dar visibilidade às peças, às histórias e aos contextos, mas também fixam no papel uma investigação que de outro modo poderia perder-se. Gosto dessa ideia de deixar um registo, de criar memória.
Neste percurso, a colaboração com a Maria Manuela Restivo tem sido fundamental. Juntas publicámos os “Pratos Falantes”, ligados a uma exposição no ateliê, e mais recentemente o livro dos Moringues, que acompanhou a última mostra. Em 2024 lançámos também o primeiro volume da série dedicada a coleções particulares de artesanato e arte popular portuguesa — começando pela minha própria coleção — e estamos já a preparar o “Coleções 2”, que deverá sair no próximo Natal.
Paralelamente, trabalho num projeto editorial em coautoria com a Ana Anahory, com quem partilhei o ateliê de arquitetura e interiores. O livro, intitulado “Casas Portuguesas com História”, verá a luz no início de 2026. Esta publicação nasceu da vontade de retratar casas de família que, pela sua beleza e memória, mereciam ser registadas antes que aquilo que as torna singulares se perdesse. Com o crescimento do turismo em Portugal, muitas destas casas foram transformadas em hotéis, alojamentos locais ou unidades rurais, sofrendo inevitavelmente uma certa descaracterização. Assistir a este processo fez-nos sentir a urgência de registar as que ainda resistem, homenageando uma identidade e um gosto português que correm o risco de desaparecer. Apesar de já não trabalharmos juntas, partilhamos esta paixão, e quisemos unir esforços para fotografar e preservar visualmente estas casas, como forma de consciencialização do seu valor patrimonial.
8. Visitar o seu estúdio
O seu estúdio, aberto a visitantes por agendamento, oferece uma seleção criteriosa de peças para venda.
O que os visitantes podem esperar ao visitá-lo? vê-o mais como uma galeria, um espaço de pesquisa ou ambos?
Felipa Almeida: O meu estúdio em Campo de Ourique é, acima de tudo, um espaço de cruzamentos. Há uma parte dedicada à minha coleção pessoal, composta sobretudo por peças de cerâmica portuguesa — tanto tradicionais como contemporâneas — que fui reunindo ao longo dos anos em feiras, exposições e colaborações com artistas. Quando recebo visitas, tenho sempre prazer em mostrar essa coleção, porque acredito que os objetos só ganham vida plena quando partilhados.
Existe também uma vertente de venda, com peças que resultam das várias exposições que organizei e outras que chegam de artistas com quem mantenho um diálogo contínuo. Gosto que esse espaço esteja em movimento, que as peças circulem, que encontrem novos destinos e que cada visitante possa levar consigo um fragmento desta história.
Por fim, há uma sala dedicada à pesquisa onde reúno livros sobre artesanato, artes decorativas e arte portuguesa e internacional, à qual dou acesso a artistas e investigadores. É um núcleo de estudo, mas também um motor de criação — muitas vezes, os temas das exposições que organizo nascem precisamente desse arquivo e do diálogo entre livros, coleção e prática artística.
Por isso, não vejo o estúdio apenas como galeria ou apenas como espaço de pesquisa: ele é ambos, simultaneamente. É um lugar vivo, onde diferentes dimensões se encontram e se alimentam. Acima de tudo, é um espaço pensado para ser útil e inspirador, não só para mim, mas para todos os que o visitam.





