Antes do lançamento da série de podcasts gravados durante o LDW25, entrevistamos a apresentadora Filipa Belo para compartilhar sua experiência com nossos leitores.
Foi um prazer colaborar contigo na produção de podcasts durante a LDW25. Como foi a experiência global?
Foi uma experiência muito rica e inspiradora. A possibilidade de estar em contacto direto com tantos criativos num curto espaço de tempo permitiu uma visão ampla, diversa e, ao mesmo tempo, profundamente humana do ecossistema criativo português. Senti que estávamos não só a documentar um momento, mas também a construir pontes entre diferentes vozes do design.
Com 96 espaços participantes e 250 designers, tivemos uma grande variedade de convidados. A nossa ideia era escolher uma diversidade de convidados activos no ecossistema do design aqui em Lisboa para melhor compreender as suas actividades, os seus projectos e as suas questões. O que achas da escolha e o que aprendeste com o processo?
A diversidade foi, sem dúvida, um dos pontos mais fortes da programação. Ter artistas emergentes ao lado de nomes já estabelecidos proporcionou um olhar plural e realista sobre o estado atual do design em Lisboa. Aprendi que o valor está tanto na consistência dos processos como na coragem de experimentar — e que o design em Portugal está cada vez mais atento ao impacto social, ambiental e emocional do que cria.
Tivemos a sorte, através da nossa parceria com o hotel Locke de Santa Joana, de poder acolher a nossa série de podcasts no magnífico bar Kissaten, aqui em Lisboa, e convidar o público a ouvir as sessões de podcast em direto. Pode descrever a atmosfera?
A atmosfera no Kissaten foi de escuta e partilha. O espaço tinha algo de especial — um certo acolhimento, uma luz certa, um ritmo calmo — que fazia com que nos apetecesse estar ali, e ficar. Criava-se um ambiente intimista, quase suspenso no tempo, que favorecia conversas profundas e honestas. Muitos dos convidados sentiram-se tão à vontade que as conversas continuaram para lá da gravação. Houve silêncios que se escutaram, olhares que se cruzaram, e momentos de verdadeira empatia — entre quem falava e quem ouvia.
Identificaste algum” patterns” nas conversas com os vários designers? O que se destacou?
Sim, houve vários padrões que emergiram naturalmente ao longo das conversas. Um dos mais fortes foi a consciência coletiva de que estamos ainda a construir a identidade do design português — e, em paralelo, do fazer à mão português. Há uma vontade clara de definir o que é uma identidade criativa portuguesa, assente no nosso território, na nossa história e nos nossos saberes, mas com olhar contemporâneo e internacional.
Também se notou, em muitos episódios, a ausência de uma marca Portugal clara e consistente no campo do design e da criação. Essa ausência gera inquietação e desejo de ação por parte dos próprios criadores, que se veem como agentes de mudança. Há uma urgência de uma visão estratégica a longo prazo, que tem de partir tanto da iniciativa pública como da privada, com um compromisso real com o setor criativo.
Outra reflexão recorrente foi o reconhecimento de que o design e o artesanato estão a ganhar maior visibilidade em Portugal — fruto de um interesse crescente tanto por parte do público nacional como do olhar estrangeiro. Este “movimento” traz esperança, mas também reforça a responsabilidade de cuidarmos dessa valorização, de forma sustentável e com sentido.
Achas que as pessoas em Portugal conhecem o enorme talento em design que este país tem para oferecer? Se não, o que pode, na sua opinião, ser feito para aumentar a consciencialização sobre os mesmos?
Acredito que ainda há muito talento por descobrir — mesmo dentro de Portugal. Falta-nos, muitas vezes, uma cultura de valorização do que é nosso. Para mudar isso, é essencial apostar na comunicação, na educação e em mais espaços de visibilidade. E também em formatos acessíveis e envolventes, como os podcasts, que tornam estas conversas mais próximas do público. Foi exatamente por isso que esta parceria com a LDW foi tão importante — para amplificar essas vozes e colocar luz sobre projetos que, de outra forma, poderiam passar despercebidos.
Quando começaste a produzir podcasts e porque escolheste este tipo de media?
Comecei a produzir podcasts em 2022 com a Portugal Manual. Senti necessidade de criar um espaço onde os artesãos, designers e artistas pudessem contar as suas histórias com tempo, profundidade e verdade. O podcast permite essa escuta sem filtros — e a construção de um arquivo vivo da criatividade em Portugal.
Como achas que isso pode fortalecer a comunidade criativa de Portugal?
A escuta gera reconhecimento. E o reconhecimento gera comunidade. Ao dar voz aos criadores, os podcasts fortalecem redes, inspiram colaborações e ajudam a construir um sentimento de pertença. São um espaço de reflexão e partilha que pode, sem dúvida, reforçar o tecido criativo português.
Main image credit : Charlie McKay