Duplas Criativas – Parte 3: Isac e Diogo – GRAUº Cerâmica

Na continuação da nossa série sobre duplas criativas que vivem e trabalham em Lisboa, falámos com Isac e Diogo da GRAUº Cerâmica. Com foco no artesanato em várias das suas formas, explorámos com eles o processo criativo colaborativo e o que distingue a cena de design lisboeta. Os nossos amigos da Morgado do Quintão — produtores de vinho com uma forte afinidade por arte e design — também se juntaram à conversa, brindando-nos com algumas garrafas.



Como se conheceram e quando decidiram começar a trabalhar juntos?

Diogo: Fomos vizinhos há muitos anos, foi assim que nos conhecemos — e nessa altura não fazíamos cerâmica. O Isac trabalhava como arquiteto e eu como designer gráfico. Depois veio a pandemia e decidimos mudar de vida e fazer algo com mais significado para nós. Ambos trabalhávamos ao computador e passávamos muito tempo a desenvolver projetos que nunca se concretizavam — que nunca ganhavam forma física. Por isso, trabalhar com design lento e criar algo tangível tornou-se importante para nós.

Isac: Sim, desacelerar, ter um ritmo diferente, criar peças não industrializadas. Há muita repetição, muita coisa igual por todo o lado — por isso, a nossa ideia é criar peças completamente diferentes. Mesmo que alguém peça três da mesma peça, cada uma vai ser única, porque sendo feitas à mão, cada uma carrega uma marca distinta. Adoramos criar peças únicas.

“Acho que muitas pessoas começaram a olhar para Lisboa com outros olhos. Agora associam o design português à qualidade.”

O que torna Portugal um lugar único para produção?

Diogo: Acho que muita gente começou a olhar para Lisboa de forma diferente. Agora associam o design português à qualidade. Dizem-nos “isto é português?” — como sinónimo de criatividade e excelência. Muitas grandes marcas produzem cá, e temos clientes em Espanha e França que nos ligam a dizer “têm fabricantes incríveis aí, as vossas peças são maravilhosas”. Portugal está a ganhar visibilidade nesta área, e esse reconhecimento é muito positivo para nós.


Preferem trabalhar individualmente ou em parceria?

Isac: Acho que é melhor trabalhar com alguém, porque podemos trocar ideias. Quando um de nós está com menos criatividade, há sempre o outro para compensar essa energia. Já lá vão quatro anos de marca, por isso já nos habituámos às vibrações um do outro. Agora temos o desafio de como escalar e produzir mais... E isso traz uma nova oportunidade de confronto — o que também faz parte do processo — mas curiosamente não entre nós, mas com o espaço físico que temos disponível.

“A comunidade da cerâmica em Lisboa é muito unida. Partilhamos muito. Não é daquelas áreas em que se quer guardar tudo só para si.”

Como passam o tempo em Lisboa fora do atelier?

Diogo: Em Lisboa, há cada vez mais exposições e adoramos visitar mostras de arte e museus. Também gostamos de visitar outros designers e ceramistas. Às vezes marcamos encontros só para falar sobre o processo e os desafios — isso ajuda-nos a pensar noutras formas de resolver problemas que são comuns a todos.

Isac: A comunidade da cerâmica em Lisboa é muito unida. Partilhamos muito — não é uma daquelas áreas em que se quer guardar tudo para si. Trabalhar com cerâmica artesanal permite criar uma perspetiva única, já que tudo é feito à mão e com moldes próprios. Isso reduz bastante o sentimento de concorrência. É bom ter esta rede de apoio entre ceramistas. Lisboa inspira-nos muito, e esperamos continuar aqui por muitos, muitos anos.

“Hoje permitimo-nos falhar muito mais. Isso é algo bonito de ter um filho — de repente pensamos: ela falha o tempo todo e lida bem com isso. Porque não havemos nós de aceitar o mesmo?”

O que vos entusiasma atualmente em Lisboa no que toca ao design e criatividade?

Isac: Descobrimos no último ano que há uma comunidade crescente de designers que estão entre o artesanato e as artes visuais, a trabalhar em conjunto para criar algo mais comunitário. Especialmente em Lisboa, toda a gente diz que o meio é muito coeso, e nota-se essa vontade de ver os outros prosperar. Queremos muito participar na Lisbon Design Week precisamente por isso — sentimos que há apoio mútuo entre ceramistas e criativos.

Diogo: Também sentimos um regresso às técnicas antigas no design. Em Portugal temos artistas e tradições culturais incríveis. É ótimo ver novas mãos, com um olhar fresco, a trazer mais opções ao design através dessas técnicas.

Isac: Gostamos dessa ideia de desfocar as fronteiras entre arte, artesanato e design — criar peças únicas faz muito sentido em Lisboa. Antes, Lisboa era um pouco descartada no contexto europeu ou pouco conhecida. Acreditamos que a Lisbon Design Week pode mudar isso.



E agora, umas perguntas finais para os nossos amigos da Morgado do Quintão:

De onde vem essa afinidade com a arte e o design?

A afinidade da Morgado do Quintão com a arte e o design é evidente na abordagem inovadora à rotulagem dos vinhos e no seu programa de residências artísticas, que já acolheu cinco artistas. Esta iniciativa presta homenagem à matriarca da família, Teresa Caldas de Vasconcellos — artista visual e professora universitária — e procura oferecer um espaço criativo para a produção de obras duradouras.


Incluem artistas nos vossos rótulos — porquê? E como escolhem os artistas para cada colheita?

Os nossos rótulos têm um design minimalista, inspirado na beleza natural do Algarve — do vasto oceano aos padrões alinhados das vinhas tradicionais. E tudo se eleva quando usamos obras do portefólio da nossa mãe ou de artistas com quem criámos laços através das residências — isso dá um propósito mais profundo e significativo ao que fazemos.