Duplas Criativas – Parte 2: Lucrezia & Iany – Macheia

Nesta série, exploramos duplas criativas que vivem e trabalham em Lisboa. Com foco no artesanato nas suas várias formas, ouvimos designers sobre como é colaborar no processo criativo e o que distingue a cena de design lisboeta. Os nossos amigos da Morgado do Quintão — produtores de vinho natural no Algarve — juntaram-se à conversa, brindando-nos com algumas das suas garrafas.

Falámos com Lucrezia e Iany, a dupla por detrás da Macheia, sobre a sua escolha de homenagear técnicas ancestrais como o bunho, depois de várias viagens a Santarém para estudar com os últimos mestres desta arte.


Comecemos pela vossa especialidade em design — o que vos atraiu no bunho?

Iany: Quando conhecemos o mestre de bunho Manuel Ferreira e esta técnica, percebemos que havia pouquíssimas pessoas a praticá-la — dois ou três artesãos. E pareceu-nos um caso de estudo para muitas outras técnicas artesanais. Estamos a assistir à extinção de saberes e não há manuais que os preservem.

Não existem livros ou espaços onde este conhecimento seja partilhado. Aprende-se com o pai, com o mestre. É um saber partilhado, quase intangível, uma forma de ver o mundo. E isso é algo que levamos muito a sério no nosso projeto — partilhar e disseminar este saber. Sublinhamos sempre a ideia de que não se trata apenas de uma peça — há todo um ecossistema por trás.

“Começas a ver as plantas como recursos reais. Olhas à tua volta e percebes que, com o saber certo, esses materiais podem transformar-se noutra coisa.”

Podem explicar-nos o processo do bunho e esse ecossistema?

Iany: Começámos por visitar o artesão e aprender tudo o que ele fazia — tanto com o material como com a técnica. A partir daí mergulhámos no ecossistema por trás da técnica — que inclui a colheita e tudo o que acontece em julho e agosto. O material é colhido, depois tem de secar ao sol durante duas semanas. Passada uma semana, é necessário virar o material para secar uniformemente.

Foi fascinante perceber o que significa ter uma matéria-prima e começar a desenhar diretamente a partir do campo. Começámos a olhar para as plantas como recursos. À nossa volta não há apenas verde — há materiais que, com o conhecimento certo, podem ser transformados. E percebemos o quanto os artesãos sabem — esse saber é o bem mais precioso.


Qual é a história por detrás do nome ‘Macheia’?

Lucrezia: É uma palavra portuguesa que significa um punhado. É uma medida baseada na sensação da mão. Quando começámos a trabalhar com o artesão, ele dizia-nos: “Sentem-se, tirem uma macheia de bunho e comecem a trabalhar.” Pensámos: isto faz todo o sentido como nome. É uma ligação direta às mãos. O meu punhado é diferente do da Iany, ou do punhado do artesão. E é isso que define o artesanato — é assim que se criam peças únicas, simplesmente por serem moldadas por mãos diferentes.

“A forma como abordamos o design passa por reapresentar técnicas do passado, repensando-as de forma que possam falar uma nova linguagem.”

Como funciona o vosso processo criativo?

Lucrezia: Uma parte essencial da nossa prática é pegar nessas técnicas do passado e repensá-las, para que possam ganhar novas formas e transmitir outras mensagens. Explorar como sair da forma tradicional e criar novos objetos, outras tipologias.

O outro elemento fundamental é a narrativa — mergulhar na história de cada técnica. Na coleção Bulrush, decidimos dar destaque ao orifício, que é o ponto de partida de cada peça feita com esta técnica. Começa aqui — com a mão do artista. Substituímos a fragilidade associada à fibra natural ao combinar o bunho com o metal. Foi uma escolha intencional — dar-lhe outra atitude, outro caráter.

“Portugal tem uma ligação muito especial com o artesanato e essa especificidade do design português, especialmente em Lisboa, deve ser celebrada.”

O que vos atrai no trabalho em colaboração?

Iany: Vimos de contextos muito diferentes — eu sou de Moçambique, a Lucrezia é de Itália. E também temos formações distintas — ela em design de produto, eu em arquitetura. Juntar esses dois mundos, os bagagens que trazemos, é muito enriquecedor. Ambos os nossos países têm tradições artesanais muito fortes — e isso traz muito ao processo de desenhar e criar conceitos.

Lucrezia: Para mim, talvez seja a parte conceptual — discutir ideias, decidir que história contar e em que forma a representar. Gosto de trabalhar em duo porque isso desafia também as minhas próprias ideias. Às vezes estou muito convencida de algo e tenho de defendê-lo... ou então volto atrás e repenso. É uma dança que por vezes é difícil, mas no fim é gratificante trocar ideias ao longo do processo.


O que vos entusiasma neste momento na Lisbon Design Week?

Iany: Portugal tem uma ligação muito especial com o artesanato, e coletivamente acolhemos essa identidade e celebramos essa especificidade do design português — que é muito própria de Lisboa. Em comparação com outras semanas internacionais de design, esta mantém-se mais próxima da autenticidade. Noutras, perde-se facilmente o fio condutor — o que estamos realmente a fazer? Estamos a caminhar para um futuro sustentável ou é só consumo? Lisboa Design Week ainda está a emergir, mas tem uma força enorme.

Lucrezia: Sim, a cena do design aqui está muito ligada aos recursos locais e às técnicas artesanais. O design e o artesanato estão aqui profundamente entrelaçados. É uma oportunidade incrível para abrir um novo caminho — e mudar o setor. Em vez de ver o artesanato como algo separado, integrá-lo plenamente no design. E quem sabe, talvez essa fusão ajude a responder à pergunta: quem será o artesão do futuro?


Agradecemos à Lucrezia e à Iany pela conversa generosa, e aos nossos amigos e apoiantes da Morgado do Quintão pelos vinhos partilhados.

A Morgado do Quintão nasceu de um profundo amor pelas artes, com a crença de que o contacto com a criação artística é uma das experiências mais enriquecedoras. O seu compromisso com a criação atravessa todas as disciplinas, colaborando com artistas na ilustração dos seus rótulos e promovendo residências artísticas na quinta no Algarve. Ao entrelaçar o trabalho da vinha com o pulsar do mundo artístico, a Morgado do Quintão torna-se um lugar onde a arte e a natureza se encontram — e convida todos os que o visitam a fazer parte deste diálogo intemporal entre a terra e a imaginação.