Por todo o lado, assistimos a um crescente interesse e valorização pelos objectos artesanais, bem como a um ressurgimento das actividades artesanais. O artesanato parece ser o antídoto perfeito para o nosso mundo digital, permitindo-nos abrandar e concentrar-nos numa única atividade. Lisboa, enquanto cidade criativa, assiste também a um número crescente de workshops de artesanato que combinam aprendizagem e contactos pessoais. Margarida Aires Mateus, fundadora da escola de artes e ofícios Artlier, sediada em Lisboa, tem sido pioneira neste panorama da criatividade.
Nesta entrevista, dedicámos algum tempo a discutir esta tendência com ela.
Pode dizer-nos mais sobre o seu percurso e formação no Reino Unido?
Sempre tive uma ligação forte às artes aplicadas e ao trabalho manual. Tive a oportunidade de aprofundar os meus estudos no Reino Unido, onde frequentei uma formação especializada em Cabinet Making and Furniture Restoration. Aqui, aprendi técnicas de marcenaria tradicional, carpintaria fina e restauro. Foi uma experiência marcante, que uniu tradição artesanal a uma visão contemporânea do design e da preservação do património. Trouxe comigo não só competências técnicas, mas também uma atenção ao detalhe e ao valor estético e histórico dos objetos, algo que me acompanha até hoje no Artlier.
Porquê uma escola de artes e ofícios em Lisboa?
A escolha de Lisboa foi natural. É a minha cidade natal, profundamente marcada por tradições como a cerâmica, a marcenaria ou a azulejaria, mas também pela perda gradual desses saberes. Sentia que Lisboa precisava de um espaço onde se pudesse aprender a trabalhar com as mãos, num ambiente de partilha e experimentação. A cidade está cheia de energia criativa, mas faltava um espaço que recuperasse saberes tradicionais e os ligasse ao presente.
O Artlier nasceu dessas vontades: criar uma escola onde diferentes gerações pudessem encontrar-se para aprender, criar e restaurar com as mãos e com tempo.
Quem são os seus alunos?
Os nossos alunos são muito variados: jovens curiosos, profissionais de outras áreas que procuram um escape criativo, e também pessoas mais velhas que finalmente encontram tempo para aprender algo que sempre desejaram. O que os une é a curiosidade e a vontade de criar com as mãos!
Que mudança viu no interesse pelas artes e ofícios?
Vejo um crescimento enorme. As artes e ofícios deixaram de ser vistos como algo ultrapassado e passou a ser procurado como uma forma de expressão, bem-estar e sustentabilidade. As pessoas procuram fazer algo tangível, viver o processo e não apenas chegar ao resultado. É também um meio para contar as suas histórias. No Artlier sentimos isso diretamente.
Que evolução tem observado na oferta de formação em artes e ofícios em Lisboa?
Nos últimos anos, tem-se assistido a um crescimento muito expressivo e positivo de escolas, ateliers e oficinas dedicados às artes e ofícios. Há mais procura e, consequentemente, mais resposta. O Artlier nasceu também nesse contexto, com a vontade de criar um espaço dedicado às artes e ofícios que fosse inclusivo, aberto a diferentes idades e níveis de experiência. Lisboa começa a ter uma rede mais sólida de lugares que valorizam o trabalho manual, e isso contribui para um ambiente criativo cada vez mais vivo e diversificado.
O que notou sobre a comunidade criativa de Lisboa hoje?
A comunidade criativa de Lisboa mostra-se cada vez mais aberta, dinâmica e colaborativa, com artistas, artesãos e designers a desenvolverem projetos em conjunto. Iniciativas como a Lisbon Design Week são fundamentais para dar visibilidade a esta energia, colocando Lisboa no mapa, à semelhança do que acontece noutras grandes capitais, e ao mesmo tempo valorizando o trabalho dos criadores locais.
O que pensa do dinamismo cultural de Lisboa?
Lisboa está num momento cultural muito intenso. Há projetos grandes e institucionais, mas também uma enorme força em iniciativas independentes e mais pequenas. O Artlier é parte dessa energia — nasceu como uma iniciativa local e próxima, e encontra na cidade um terreno fértil para crescer e responder às necessidades deste mesmo dinamismo. Esse equilíbrio entre o grande e o pequeno dá vitalidade à cidade e faz com que esteja em constante movimento.

