Quão central é a narrativa quando se integra tecnologia em espaços interiores? A própria tecnologia pode tornar‑se um meio narrativo?
Tecnologia é uma ferramenta com um enorme potencial de contar boas histórias, e também de emocionar. Eu acredito no uso dessas novas tecnologias numéricas para nos aproximarmos uns dos outros, para humanizar e aquecer. Tenho defendido isso arduamente para os meus alunos.
O design de produto envolve frequentemente uma proximidade física e emocional direta com o utilizador. Como pode a tecnologia reforçar a intimidade, o cuidado e a ligação emocional com um objeto, em vez de os perturbar?
Tenho um projeto bem especial que pode me ajudar a ilustrar uma resposta. Se chama Aura Pendant, um projeto de joalheria impressa em 3D. Trata-se de um aplicativo para celular, em que é possível contar uma história de amor, enquanto esse app coleta o batimento cardíaco (através do dedo posicionado em cima do flash), e analisa a emoção no tom de voz. A partir desses dois inputs, é gerada em tempo real uma pequena mandala, que pode ser impressa em ouro ou prata, e utilizada como um pingente, para usar próximo do coração. Desde sua criação recebemos inúmeros feedbacks muito emocionantes, como o de uma mulher no Brasil, que disse que sua terapeuta sugeriu o aura Pendant como um ritual de cura na depressão por uma perda recente dela. Isso pra mim é design, é tecnologia, e é uma maneira de se entender sustentabilidade pelo seu potencial afetivo. Um objeto como esse, gerado através do afeto, certamente terá seu ciclo de vida muito mais longo.
Os seus projetos surgem frequentemente de colaborações entre designers, programadores, engenheiros, cientistas e artistas. De que forma é que este processo interdisciplinar influencia a profundidade emocional e a empatia incorporadas no trabalho final?
Multidisciplinaridade é um pilar fundamental da inovação, e é uma parte realmente importante no meu trabalho. Meus projetos mais interessantes contam com a colaboração de neurocientistas, psicólogos, programadores e engenheiros. Mas um ponto fundamental, para se discutir o futuro do design, é a questão de raça e diversidade. Meu estudio se tornou um lugar muito mais interessante, com projetos mais aprofundados, justamente quando passei a contratar ativamente pessoas diferentes de mim, arquitetos pretos, ou pessoas trans, por exemplo, que trazem um outro olhar para o mundo, a partir de vivências que são diferentes da minha.Por isso falamos sobre design pluriversal, que busca reconhecer o mundo a partir de diferentes perspectivas, diferentes lentes, pra além da lente ocidental eurocêntrica, branca, binária, patriarcal e colonizadora, com forte viés racista, homofóbico e machista.
Abrir nossos estúdios de criação, para esses outros olhares, pode levar nossos projetos para lugares inimagináveis. Assim, inovação pra mim, vem menos da tecnologia em si, e muito mais da potência dessa união de saberes. Se você for convidado para participar de um evento sobre inovação e futuro, e todos os palestrantes forem brancos, pode ir embora tranquilamente, porque nesse ambiente não será discutido o futuro com profundidade.