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Construir uma Mesa Maior: Ana Lia Santos sobre a Nova Geração do Design em Lisboa

A Lisbon Design Week tornou-se uma plataforma essencial para designers emergentes portugueses, oferecendo visibilidade e oportunidades que ligam o artesanato local ao reconhecimento internacional. A exposição “Young Design Generation” do ano passado na Roca Gallery — nascida de uma open call — apresentou trabalhos inovadores de designers com menos de 35 anos. A par de eventos mensais de networking no LACS Santos, estas iniciativas demonstram como a Lisbon Design Week continua a amplificar novas vozes na comunidade de design.

Estes criadores emergentes distinguem-se pela paixão pelos materiais em estado bruto, pelo património cultural e pela tradição artesanal portuguesa, transformando frequentemente interesses pessoais em prática profissional. Muitos trabalham a partir de estúdios individuais ou coletivos, criando mobiliário e instalações que contam histórias — venham eles de uma formação artística tradicional ou sejam autodidatas.

Poderás descobrir as suas histórias na nossa série no Instagram “New Design Generation”, onde apresentamos os percursos e as inspirações por detrás do trabalho de designers tão diversos como Silvia Matias, diretora criativa e designer do cartaz da Lisbon Design Week 2024, Fabio Teixeria, criador de peças de mobiliário e decoração em mármore, ou Mariana Ralo, artista têxtil que cria tapeçarias com um olhar contemporâneo.


Como descreves o setor do design em Portugal hoje?

O setor do design está a crescer, acompanhando o ritmo da economia portuguesa. Este crescimento vai além do design para a indústria e os serviços, e está ligado ao movimento Maker, que combina o património cultural e artesanal português com uma forte ligação à natureza. Outro indicador desse crescimento é a oferta formativa altamente atrativa, que atrai estudantes internacionais e promove um ambiente multicultural, tanto nas instituições académicas como nos coletivos culturais.


Quais os maiores desafios que os jovens designers enfrentam hoje?

Acho que os desafios não são muito diferentes dos que enfrentava a minha geração. A resposta encontra-se num livro maravilhoso — Cartas a um Jovem Designer (Humberto Campana e Fernando Campana, 2017, Alta Books) — onde os designers brasileiros aconselham os aspirantes a designers:

“…Não importa de onde se vem, a que classe social se pertence, do que se gosta ou desgosta. O que importa é escolher um caminho e persistir nele, com disposição para enfrentar momentos difíceis, tropeços, todo o tipo de adversidade. Siga a sua essência, mesmo que, naquele momento, ela não esteja alinhada com o pensamento dominante ou com as tendências de mercado. Lembre-se que o mundo é altamente dinâmico e está em constante transformação — algo que hoje não ressoa, pode ressoar amanhã. Tenha isso em mente, vá atrás, crie as suas oportunidades.”

Quais são as partes mais difíceis de desenhar um novo produto ou serviço?

Antes de mais, é difícil criar algo que nunca foi feito antes, e o design é muitas vezes chamado a responder a situações para as quais ainda não existem soluções ou referências. Além disso, é um desafio conceber um sistema que tenha em conta muitas variáveis e que, ainda assim, resulte num equilíbrio — evitando tanto o vazio como o exagero absoluto.

É por isso que tantos projetos falham na integração. É necessário desenhar não só o produto ou serviço em si, mas também como ele se integra num ecossistema mais vasto. O sucesso dependerá do custo-benefício a longo prazo que o produto ou serviço representa (ou é percecionado como tal) — primeiro para esse ecossistema, depois para os seus utilizadores.


Que conselho darias a um jovem designer a começar a carreira em Lisboa?

Começa cedo, e não importa onde. Está sempre a criar (de preferência com amigos), experimenta muito e aprende com toda a gente.


Nos últimos 20 anos, como evoluíram as motivações e objetivos dos recém-licenciados? E os percursos dos designers mais experientes?

Não consigo dar uma resposta direta — aconteceu demasiada coisa — mas posso sugerir um padrão de mudança. Acredito que houve um aumento contínuo da pressão por desempenho no design. O lado negativo dessa trajetória é que se perdeu a noção de quanto o tempo é aliado do sucesso em design — tanto o tempo operacional (para experimentar, criar, falhar, descansar, discutir, ler, etc.) como o tempo significativo (que permite o distanciamento necessário para avaliar o próprio trabalho).

Hoje, há muito menos tempo para se tornar designer. Os cursos de design duravam cinco anos, mas com a adaptação ao Processo de Bolonha em 2008 passaram a durar três. Tudo é mais rápido e mais volátil para as gerações mais novas.

Há também menos tempo para pensar e fazer design. A ideia de que “tempo é dinheiro” continua por provar. Talvez esta geração deva desconfiar de processos de design tipo “caixa preta”, com resultados que se validam a si próprios. Grande parte da influência e mudança positiva que as gerações anteriores conseguiram alcançar veio precisamente da sua resistência à pressão pelo desempenho. Encararam o design como uma forma de expressão pessoal, valorizaram o processo, alinharam os seus resultados com os seus princípios e estavam preparadas para abraçar o tempo — tanto para o sucesso como para o fracasso.


À medida que a Lisbon Design Week reforça o seu compromisso com o talento emergente, esta missão expande-se em 2025 com uma nova open call em parceria com o museu de design MUDE. Esta iniciativa selecionará 20 peças para integrar uma coleção cápsula a ser exibida no MUDE de 28 de maio a 27 de julho de 2025.

Os insights de Ana Lia Santos lembram-nos que, para além das competências e das tendências de mercado, o sucesso em design exige persistência, experimentação e coragem para seguir uma visão própria.

Na exposição da Roca do ano passado, Ana Lia Santos e a arquiteta Justine Mūrniece conceberam um display que desafiava todas as normas tradicionais de montagem — uma estrutura feita por medida, com configurações ajustáveis, permitindo uma adaptação a diferentes contextos e funções. Esta abordagem criativa ampliava o espaço dado a cada peça e conduzia os visitantes pela galeria de forma fluida e eficaz.

Através do seu compromisso contínuo com a Nova Geração do Design, a Lisbon Design Week não está apenas a apresentar novos trabalhos — está a ajudar a construir essa “mesa maior” onde o design português do futuro poderá crescer.